Produtividade e Saúde Mental

Fala-se muito sobre baixa capacidade produtiva das empresas em nosso país, explicando-a principalmente pelo parco investimento em novas tecnologias e pela educação de pouca qualidade. Trata-se de uma assertiva, porém falta incluir, nela, questões relativas à saúde, principalmente à saúde mental, destacando-se o estresse e a depressão.

A Organização Mundial de Saúde define a doença mental como um conjunto de condições medicas que afetam o pensamento, o sentimento, o humor, a capacidade de se relacionar com os outros e a eficiência nas atividades da vida diária. Ela tem sido pauta dos principais fóruns econômicos mundiais, para análise e discussões de como trata-la nos próximos anos. No Fórum Econômico de Davos, na Suíça, ocorrido em janeiro deste ano, foram realizados vários debates sobre questões relativas à saúde mental, devido ela ser uma das principais causas das faltas ao trabalho, gerando queda na produtividade e custos altíssimos para as empresas e para a sociedade.

Estudo realizado pela Escola de Saúde Pública de Harvard traz uma série de projeções, até 2030, a respeito de questões relativas à saúde mental ligadas à economia. As condições relacionadas a esse campo da saúde serão responsáveis pela perda adicional, no mundo, de US$ 16,1 trilhões nos próximos 20 anos, com impacto dramático na produtividade econômica dos países e na qualidade de vida das pessoas. A quantia que custará a saúde mental para os países, nesse período projetado, será maior do que a soma dos custos de todas as demais doenças.

Vejo, porém, com otimismo o futuro do trabalho relacionando-o com os cuidados devidos pela empresa com a saúde mental de seus empregados. Companhias de ponta no País, cientes das perdas de produtividade geradas, principalmente, pelo estresse e pela depressão de seus colaboradores e preocupadas com a qualidade de vida desses, vêm implementando programas visando a combater essas enfermidades. Mudanças têm ocorrido nessa direção, nas empresas que estão se sobressaindo economicamente, e, no futuro, essas mudanças vão se difundir para as demais companhias. Não será o trabalho, em boa parte dos casos, o ocasionador de doenças mentais.

Estudo também feito pela Escola de Saúde Pública de Harvard revela que dentre as nações ricas, que possuem políticas e programas para combater as doenças mentais, 32% das empresas praticam atividades para eliminar o estresse de seus colaboradores. No caso das nações de baixa renda ainda são apenas 14% das suas companhias que estão nesse caminho. Embora baixa, a porcentagem já demonstra uma conscientização. É um começo, diria até expressivo, de um processo irreversível para se combater o absenteísmo e a falta de concentração no trabalho.

Não consigo ser otimista, porém, no que tange ao futuro de outro grande ocasionador do estresse e da depressão no Brasil, que é a crescente urbanização e suas consequências: trânsito, ausência de equipamentos públicos eficientes, burocracias, insegurança nas ruas, custo de vida, etc. É aqui que reside agora e no futuro o grande problema do aumento das perdas econômicas em razão das enfermidades de saúde mental. Os trabalhadores, nos próximos 20 anos, período projetado pelo estudo, estarão estressados ou deprimidos mais pelas condições de citadinos do que de empregados.

Para se combater os males provocados pela saúde mental, como a perda de qualidade de vida das pessoas e a baixa na produtividade das empresas e do País, é preciso investir mais nesse campo. Infelizmente, apenas 2,3% do orçamento do SUS é destinado à saúde mental. Além disso, é insignificante o número de agentes comunitários que atendem as famílias que têm, entre seus membros, pessoas com problemas de estresse ou de depressão. O fato é que as empresas já estão se mexendo. Falta o governo fazer a parte dele. Pois, como diz uma máxima entre profissionais da área médica, é impossível ter saúde sem ter saúde mental.

Por: Sérgio Amad Costa
PROFESSOR DE RECURSOS HUMANOS E RELAÇÕES TRABALHISDAS DA FGV-SP

Risco de depressão é menor entre as pessoas com nível mais alto de instrução

O risco de depressão é menor entre as pessoas com nível mais alto de instrução, aponta o informe anual da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) sobre a educação.

Segundo o relatório, indivíduos com mais diplomas têm melhores oportunidades de trabalho, o que “reduz a ansiedade”.

As pessoas com mais instrução têm “uma taxa de mortalidade menor e uma expectativa de vida mais alta”, destaca o informe “Panorama da Educação 2017” da OCDE, publicado nesta terça-feira (12).

Os dados coletados pelo organismo mostram que a educação pode contribuir para combater a depressão.

“Os indivíduos com mais instrução têm, em geral, melhores oportunidades de trabalho”, o que diminui “a ansiedade e a depressão”.

Esta conclusão se baseia em uma pesquisa realizada em 2014 em vários países europeus, cujos resultados foram publicados este ano.

Nestes países, 8% das pessoas com idades entre 25 e 64 anos afirmam ter sofrido depressão nos últimos 12 meses. E “a incidência da depressão declarada pelos interessados varia sensivelmente em função do nível de formação”.

Em média, o percentual de pessoas com depressão é duas vezes maior entre os adultos sem diplomas da segunda metade do ensino médio (12%).

A diferença chega a 3 pontos percentuais entre as pessoas que têm um diploma de bacharel e as que têm instrução superior.

“O percentual de adultos que afirmam sofrer depressão diminui sucessivamente em função do nível de formação”, afirma o estudo.

A educação “contribui para o desenvolvimento de uma série de habilidades”, mas estas não têm o mesmo impacto sobre a depressão, diz o informe.

“A construção de habilidades sociais e emocionais, como a autoestima, tem mais impacto do que a aquisição” de competências matemáticas, ou literárias.

A pesquisa mostra que o percentual de mulheres que declaram sofrer depressão é superior ao dos homens, mas “diminui de forma mais forte do que o dos homens em função do nível de formação”.

Embora a depressão tenha múltiplas causas, seu risco aumenta com o desemprego, ou a inatividade, duas situações que podem levar à solidão e a problemas financeiros.

“Aumentar o nível de capacitação dá às pessoas ferramentas melhores para lidar com este fator de risco”, conclui a OCDE.

(Fonte: UOL)

Romper o paradigma contra as pessoas com deficiência ainda é um tabu

“Quando olhamos para as pessoas em situação de rua, falamos que são pessoas usuárias de drogas; quando olhamos para as pessoas LGBT´s, pensamos que todas são promíscuas, e quando olhamos para as pessoas com deficiência, dizemos que todas elas não podem. O rótulo é uma coisa muito complexa no nosso cotidiano e se desvencilhar disso é muito difícil”, comenta a pedagoga Maria de Fátima e Silva.

Diante da fala da pedagoga é possível perceber que o preconceito contra nordestinos, imigrantes, negros, gays, lésbicas, travestis, transgenêros, pessoas em situação de rua e pessoas com deficiência são discriminadas pela sociedade.

A sua experiência mostra que o paradigma que a sociedade tem perante as diversidades existentes no mundo faz com que leis e ações sejam instituídas com o objetivo de protegê-las. “O respeito à diversidade é fundamental para constituir e promover a inclusão”, salienta Maria de Fátima.

A pedagoga milita há muitos anos na área de Inclusão de Pessoas com Deficiência e apoia o Espaço e Cidadania que tem como premissa debater políticas públicas voltadas para a igualdade de oportunidades. Para ela, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ainda é muito difícil.

“O reflexo dos paradigmas com relação às pessoas com deficiência é levado para o mundo do trabalho. Os processos de recrutamento e seleção guardam as maiores discriminações que temos na sociedade. O mundo corporativo deveria ter um olhar mais humanizado e de sustentabilidade para contratar uma pessoa com deficiência”, ressalta Maria de Fátima. Completa que a empresa é uma razão social e um CNPJ, porém, quem discrimina são as próprias pessoas que ocupam cargos e funções.

A pedagoga informa que no âmbito familiar mesmo tendo algumas dificuldades, existem as relações emocionais. Bem como, na educação, em que alguns aspectos ainda mesmo necessitando de ajustes, a linha é mais humanizada.

Já, no mundo do trabalho, é bem diferente. A exigência na produção, no foco e no cumprimento de metas vem crescendo a cada momento e exigindo mais dos trabalhadores. “Como trazemos para esse mundo esse olhar para o direito, o respeito e os potenciais de cada um, ou seja, de olhar para o outro como eu gostaria que olhassem para mim”, interroga Maria de Fátima.

Visão das empresas

A especialista quando palestra sobre a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho encontra uma rejeição, pois o mundo corporativo acredita que não é problema deles, mas somente do governo e dos familiares.

“A empresa não está fora do organismo da sociedade. Contudo, precisa compreender o seu papel de transformá-la”, frisa Silva.

Há 26 anos foi instituída a Lei de Cotas nº 8.213, com o sentido de garantir o direito das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. O Ministério do Trabalho, por meio de suas superintendências regionais desenvolve ações de fiscalização e de trabalhos de conscientização, para que as empresas com mais de 100 funcionários respeitem a Lei de Cotas.

A pedagoga cita também que em janeiro de 2016, foi regulamentada a Lei Brasileira de Inclusão de Pessoas com Deficiência nº 13.146 de 2015, a qual coloca em condições de igualdade para exercerem atos da vida civil.

História ao longo dos séculos

Maria de Fátima salienta que conforme observação do educador em direitos humanos, Reinaldo Bulgarelli, o padrão dominante é aquele eleito na consciência das pessoas, individual e coletivamente, com base na nossa história, nos costumes, nos aprendizados que herdamos das gerações passadas.

Ou seja, é considerado padrão dominante o homem branco, heterossexual, adulto, sem deficiência, saudável, magro, católico e entre outros.

Em um período da Idade Antiga, Idade Média e da Idade Moderna (século XV ao XVIII), excluía-se totalmente a pessoa com deficiência. De acordo com estudos, essas pessoas eram consideradas inválidas e, que diante disso, não poderiam exercer nenhuma atividade. Sobretudo, conviver no seio familiar ou com a sociedade, pois eram mantidas em hospitais, abrigos e prisões.

A pedagoga informa que na exclusão: “os semelhantes se aproximam e todos os que são considerados diferentes estão fora, cada um por si”; segregação: “os semelhantes se aproximam, enquanto os diferentes também se agrupam”; integração: “os diferentes estão no mesmo espaço físico, mas ainda assim separados. Exemplo: as classes especiais, que funcionavam no mesmo prédio escolar, mas em sala de aula separada”; inclusão: “todos juntos e misturados, no mesmo espaço físico”.

Com esse último pensamento, Maria de Fátima, informa que em 10 de dezembro de 1948, a Organização das Nações Unidas (ONU) por meio da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) ressaltava que “todas as pessoas nascem livres e iguais em direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação uma à outra pessoa com espírito de fraternidade”.

“As características não definem quem eu sou, ou o meu caráter e competência profissional. São as nossas diferenças que fazem um mundo melhor”, enaltece a pedagoga.

Ao final da apresentação, a pedagoga informa que existe como parte do Programa Coexistir, um Guia de Capacitação para Profissionais que Atuam no Segmento Varejista Alimentícia com Programas de Inclusão. Trata-se de uma cartilha inédita e gratuita desenvolvida pelo Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo, em parceria com o Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, o intuito da publicação é apoiar os departamentos de Recursos Humanos (RH) na contratação de profissionais com deficiência, podendo ser utilizada por empresas de todos os setores.

A técnica Eliane Vainer Loeff da Coordenação de Educação (CEd), comenta que em um planeta que possui 7,6 bilhões de habitantes, se todos fossem iguais provavelmente não teríamos a riqueza da diversidade. No entanto, ela frisa que é fundamental respeitar a individualidade e peculiaridade de cada um.

“Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos não se pode ter discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião e outros. Nesse sentido, as empresas que adotam e incluem as pessoas com deficiência são empresas muito mais humanizadas. A pior barreira que a pessoa com deficiência enfrenta no seu dia a dia, não está ligada somente na barreira arquitetônica, mas, sim, na barreira atitudinal”, frisa Eliane.

Organização do evento e mesa de abertura

Eliane Loeff da (CEd), promoveu o evento sobre Diversidade e Inclusão: Qual é o seu Papel, no Centro Técnico Nacional da Fundacentro, realizado no dia 09 de agosto.

A mesa de abertura foi composta pela presidente da instituição, Leonice da Paz, e pela assessora da Diretoria Técnica, Tereza Luiza Ferreira Santos. A presidente parabeniza a iniciativa da Eliane Loeff e a palestra da pedagoga em abordar um tema importante para reflexão sobre no papel da sociedade em respeitar a diversidade.

“A Fundacentro completará 51 anos e, eventos desta envergadura e pessoas engajadas nessas causas, têm enaltecido a nossa instituição a nível nacional e internacional”, frisa Leonice.
Tereza Ferreira destaca as atividades realizadas pela Coordenação de Educação (CEd), que vem desde 2008, implementando temáticas sobre inclusão, pessoas com deficiência e lei de cotas. Para a assessora técnica, as temáticas sobre diversidade e inclusão precisam ser inseridas no mundo do trabalho.

“Este tema é totalmente pertinente, porque diversidade a gente vê no modo de produção, nas formas de estar no mundo, nas diversas pessoas e nas várias maneiras como as pessoas se comportam diante de um determinado tempo ou situação. Antigamente não se falava tanto de inclusão, hoje em dia é um tema importante porque existe a necessidade de conviver com as diferenças”, salienta Tereza. Ela ainda ressalta sobre as questões de exclusão e inclusão. “A inclusão fazemos com políticas, mas também fazemos com mudanças de comportamento”, explana.

Fonte: Fundacentro

Césio-137: trabalhadores foram sem proteção aos pontos com radiação

Após 30 anos, vítimas revisitaram locais ligados ao acidente radiológico com o césio-137 e relembraram os momentos traumáticos que viveram em setembro de 1987. Muitos carregam até hoje sequelas, tanto físicas quanto psicológicas, após terem contato direta ou indiretamente com o material. Eles relatam que sofreram vários tipos de humilhações, como serem agredidos ao andar na rua, expulsos de ônibus e até “lavados como uma Kombi” no processo de descontaminação.

“Lá no fundo, a gente sofre muito, a gente não deixa de reviver as perdas. Não só materiais, mas principalmente vidas e o direito de ir e vir”, disse Odesson Alves Ferreira, membro da família mais afetada pelo césio na época.

O acidente aconteceu após dois catadores de materiais recicláveis encontrarem um aparelho de radioterapia abandonado em uma antiga clínica de radiologia. Eles começaram a desmontar o equipamento em casa e, na sequência, o venderam a um ferro-velho, onde foi feita a descoberta do pó que brilhava à noite. Oficialmente, quatro pessoas morreram vítimas do pó azul radioativo, entre elas a menina Leide das Neves, de 6 anos, e outras 249 tiveram algum tipo de contaminação.

A primeira parada do cilindro com a cápsula de césio ocorreu na Rua 57, no Setor Central, onde foi desmontado, a marretadas. Na época, a residência foi demolida devido à contaminação no local. Até hoje, o lote está vazio e coberto de concreto. A falta de identificações oficiais sobre o acidente ou memoriais em homenagem às vítimas é quase uma regra em todos os pontos afetados. Nesse local, apenas um grafite com elementos radiativos faz referência ao que aconteceu ali, há 30 anos.

O motorista Jason Franco Rocha conta que esteve várias vezes no local atingido para retirar o entulho e levar para Abadia de Goiás, onde todos os rejeitos foram enterrados. Trabalhando inicialmente com roupas comuns, do dia a dia, achava que desempenharia uma tarefa rotineira.

“Viemos para cá sem saber de nada. Nos mandaram falando que era um vazamento de gás. Só do terceiro dia em diante é que ficamos sabendo da gravidade do problema. Daqui saiu televisão, cachorro, galinha, o que tinha aqui foi encaixotado. Não sobrou nada”, contou.

Ele, assim como outras dezenas de vítimas, era funcionário do então Consorcio Rodoviário Intermunicipal S.A. (Crisa), que ficava na Avenida Portugal, no Setor Oeste, em Goiânia. Muitos foram mandados – inclusive sem o material de proteção adequado, em um primeiro momento – para os vários pontos por onde o material radioativo passou. Esses trabalhadores recolhiam todo o tipo de rejeito. Hoje, no local, existe um hipermercado.

Ele lembra do susto das pessoas após eles receberem as roupas próprias para o trabalho: “Quando a gente recebeu os macacões para trabalhar, as pessoas assustavam quando viam a gente, parecia até um astronauta”.

Além das lembranças, ele guarda fotos que mostram os trabalhadores sobre os contêineres com os rejeitos radioativos, sua carteira de funcionário do Crisa e até uma espécie de caneta para sinalizar o nível de radiação.

“Ela tinha uma pilha, uma bateria dentro, e a gente sempre deixava no bolso. Quando a radiação era muito grande, ela começava a bater no peito e a gente sabia que ali estava com muita radiação”, completou.

“A gente era enganado, não sabíamos que tipo de risco corríamos, que tipo de problemas podíamos ter, igual eu e muitos colegas temos. Um dia, peguei um ônibus e, quando cheguei no Terminal de ônibus do Dergo, quatro homens me abordaram e perguntaram se eu trabalhava no Crisa. Eu disse que sim, e mandaram eu descer e começaram a me atacar, me empurrar para fora do ônibus”, lembra com muita tristeza o ex-servidor do Crisa, Clóvis Raimundo da Conceição.

Descontaminação

Devido à dimensão do acidente milhares de goianienses precisaram passar por monitoramento e descontaminação no Estádio Olímpico, na Avenida Paranaíba, no Setor Central. Odesson Ferreira pisou no local pela primeira vez após 30 anos e se lembra vividamente do que passou naquela época.

Ele é irmão de Devair, dono do ferro-velho onde a cápsula do césio-137 foi retirada, e de Ivo, que levou o material radioativo para casa e mostrou para os parentes, inclusive a filha, Leide das Neves, símbolo da tragédia e que morreu após fazer um lanche com as mãos sujas com o pó azul.

Ele, que era motorista de ônibus na época, lembra-se da fila que se formou indo da Avenida Paranaíba, contornando o estádio e chegando à entrada de jogadores. Todos eram monitorados: as pessoas que estavam mais contaminadas iam para dentro do gramado. As que estavam com níveis mais baixos iam para as arquibancadas, e outras eram liberadas.

“Eu, por exemplo, fui para casa vestido com um avental descartável, porque minha roupa, sapato, uniforme da empresa onde eu trabalhava, tudo ficou aqui, no dia 30 de setembro”, disse.

Traumas e sequelas

Todos que tiveram algum contato com a pedra azul e radioativa do césio-137 relatam algum tipo de sequela ou trauma.

O mecânico de máquinas do Crisa, Teodoro Juvenal Bispo Neto, conta que muitos trabalhadores tiveram algum problema de saúde ligado ao acidente radiológico, mas que nem todos são reconhecidos como vítimas.

“Hoje, somos encostados. Tivemos contato com o césio, mas hoje estamos no grupo três para tratamento. Brigamos para receber uma pensão, não temos acesso a nenhuma assistência. Uns os dentes caíram, outros estão cegos. Tem gente com verruga nascendo dentro do olho. Nós nunca quisemos ser heróis de descontaminação de Goiânia”, contou.

Apenas quatro mortes são atribuídas ao acidente com o césio-137. “Apesar disso, tem mais de mil pessoas que recebem alguma indenização. Nessa área financeira, eles admitem que as pessoas foram vítimas, mas para o lado do tratamento, não admitem. Eu perdi a palma da mão, e parte do indicador direito e esquerdo. Eu tive que tratar oito doenças distintas, mas nenhuma delas era associada ao acidente oficialmente. Até 2010 a gente recebia medicação para tratar algumas doenças, mas, desde então, estamos sem receber esse tratamento”, contou Odesson.

A Secretaria Estadual de Saúde estima que cerca de 1.200 pessoas são atendidas pelo Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), recebendo atendimento em várias especialidades médicas e assistência psicológica. Também são realizadas visitas domiciliares às vítimas e monitoramento dos efeitos tardios da radiação.

Ao todo, segundo a secretaria, 530 pessoas recebem pensões estaduais no valor de cerca de R$ 750 cada, 250 recebem benefícios federais e 130 acumulam as duas. O governo tem um estudo para aumentar o valor, mas não há uma definição de qual a nova quantia e nem quando ela seria concedida.

Com relação aos trabalhadores do Crisa, o governo os reconhece como “trabalhadores de áreas já descontaminadas”, enquadrando-os no terceiro grupo de assistidos. Entretanto, segundo a secretaria, não há nenhuma diferença no tratamento recebido por eles em relação às vítimas dos outros dois grupos.

Sobre a medicação, o órgão explicou que não deixou de disponibilizar nenhum medicamento da farmácia básica e outros de alto custo através da Central de Medicamentos Juarez Barbosa. Entretanto, qualquer outra demanda deve passar por um processo de judicialização.

O governo informa ainda que está em fase de finalização um painel em memória às vítimas do césio-137 que será entregue na inauguração do Hospital do Servidor Público de Goiás.

(Fonte: G1)